Resumo: A conversão de áreas naturais em ambientes antropizados figura entre as principais causas da perda da biodiversidade global. Essa pressão antrópica impacta pequenos rios, cujas cadeias alimentares são altamente dependentes de fontes alóctones. A urbanização altera a disponibilidade de recursos alimentares, que afeta os peixes e seu nicho trófico. Nesse contexto, avaliou-se a estrutura trófica de uma espécie de peixe detritívoro em riachos urbanos. Analisou-se composição isotópica de δ15N e δ13C deste explorador do fundo em diferentes graus de antropização. Foram testadas duas hipóteses: (1) há maior amplitude do nicho isotópico da espécie detritívora em riachos mais antropizados; (2) e há menor contribuição da fonte alóctone à biomassa do consumidor em riachos com menor cobertura natural em suas margens. A primeira hipótese foi parcialmente confirmada. Os consumidores do riacho A, menos impactado, apresentaram a menor área de nicho isotópico, corroborando a hipótese. No entanto, essa tendência não foi observada de forma consistente entre os riachos mais antropizados. Por exemplo, os peixes do riacho B, com 50% de uso antrópico, exibiram maior amplitude de nicho do que aqueles do riacho D, cujo entorno apresenta 100% de uso antrópico. A ampliação do nicho isotópico, é o reflexo de dieta menos especializada, evidenciando o cenário de instabilidade funcional, que pode comprometer a integridade trófica das comunidades. A segunda hipótese foi rejeitada, pois a fonte alóctone foi a que mais contribuiu para a biomassa do consumidor, em todos os riachos, principalmente a vegetação ripária C3, que permaneceu como a principal base energética, mesmo em ambientes altamente impactados. Os resultados indicaram uma metodologia promissora que pode ser aplicada em outros riachos, reforçando a importância da conectividade entre os sistemas terrestres e aquáticos, e ressaltando a necessidade de valorizar esse tipo de abordagem em pesquisas futuras.
Abstract: The conversion of natural areas into anthropized environments is among the main causes of global biodiversity loss. This anthropogenic pressure affects small streams, whose food webs are highly dependent on allochthonous sources. Urbanization alters the availability of food resources, influencing fish and their trophic niche. In this context, the trophic structure of a detritivorous fish species was evaluated in urban streams. The stable isotope composition of δ15N and δ13C was analyzed for this bottom-feeding species across different levels of anthropization. Two hypotheses were tested: (1) the isotopic niche breadth of the detritivorous species is wider in more impacted streams; and (2) the contribution of allochthonous sources to consumer biomass is lower in streams with less natural riparian cover. The first hypothesis was partially confirmed. Consumers from stream A, the least impacted, showed the smallest isotopic niche area, supporting the initial expectation. However, this trend was not consistent across the more anthropized streams. For instance, fish from stream B, 50% anthropogenic land use, exhibited a larger niche breadth than those from stream D, 100% anthropogenic land use. The expansion of the isotopic niche reflects a less specialized diet, indicating functional instability that may compromise the trophic integrity of stream communities. The second hypothesis was rejected, as allochthonous sources particularly C3 riparian vegetation were the main contributors to consumer biomass in all streams, even in highly impacted environments. These results highlight a promising methodology that can be applied to other stream systems, reinforcing the importance of connectivity between terrestrial and aquatic ecosystems and underscoring the value of this type of approach in future research. |